Campeonato do Mundo não traz crescimento ao Brasil

25 JUNHO 2014
Após uma análise dos dados económicos brasileiros, a Euler Hermes, acionista da COSEC, apresenta um estudo onde demonstra que o Campeonato do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 não terão um impacto positivo na economia brasileira.

No último Outlook económico, a Euler Hermes demonstra que os dois eventos de nível mundial a acontecer no Brasil irão aumentar exponencialmente a inflação neste mercado. A falta de infraestruturas, um baixo investimento crónico, as regras de protecionismo mercantil, os elevados níveis de taxação de produtos, em conjunto com um ambiente empresarial complexo, fazem com que este país sul-americano não aproveite ao máximo a atividade económica adicional que este tipo de eventos podem gerar. “As várias análises efetuadas ao longo dos tempos demonstram que estes mega-eventos têm efeitos muito positivos a curto prazo na economia mas muitas vezes também trazem consigo efeitos negligenciados e negativos a longo prazo e, no caso do Brasil, esses mesmos efeitos estão à vista de todos”, refere Ludovic Subran, economista chefe da Euler Hermes. “Não só o país não foi capaz de aproveitar os benefícios de um Campeonato do Mundo de Futebol, como agora enfrenta uma forte taxa de inflação que está a ter um impacto direto na vida dos brasileiros.

Os preparativos para o Campeonato do Mundo de Futebol e para os Jogos Olímpicos não conseguiram impedir o forte abrandamento sentido na economia brasileira nos últimos três anos, não existindo sinais de reversão desta mesma tendência. Para 2014, o Outlook estima que o impacto positivo destes eventos no crescimento do PIB seja limitado a 0,2 pontos percentuais. No entanto, o impacto na inflação poderá atingir os 0,5 pontos percentuais neste ano. No conjunto dos dois eventos espera-se um acréscimo de 2,5 pontos percentuais dos preços para o consumidor final no período entre 2009 e 2016. O impacto esperado na atividade económica irá iniciar o seu período de declínio após 2014, porém os efeitos nos preços ao consumidor manter-se-ão até 2020. Este surto de inflação já está a criar tumultos sociais, que poderão resultar em reformas estruturais e uma nova agenda política para o país.

Para além do aumento da inflação, os impactos do Campeonato do Mundo incluem menor impacto no PIB e no crescimento do investimento. O investimento total em infraestruturas para o Campeonato do Mundo de Futebol poderá chegar a 8,59 mil milhões de euros (0,5% do PIB) entre 2009 e 2014 e aproximadamente 4,63 mil milhões de euros com os Jogos Olímpicos (0,2% do PIB) entre 2014 e 2016. Estas são pequenas quantias quando comparadas com o volume da economia do país. De 2009 a 2013, este estudo estima que os investimentos efetuados somente acrescentaram, em média, entre 0,5 e 0,8 pontos percentuais por ano ao crescimento real do investimento e 0,1 a 0,5 pontos percentuais ao crescimento real do PIB. Espera-se que este impacto comece a declinar após 2014.

O Campeonato do Mundo também não tem impacto estrutural no emprego. As autoridades brasileiras esperam que o Campeonato do Mundo de Futebol crie 700 mil empregos ao longo do ano de 2014. Com a força de trabalho brasileira estimada nos 100 milhões de trabalhadores, o impacto deste evento é muito reduzido, especialmente a longo prazo. Muitos dos empregos criados no sector da construção irão desaparecer após a conclusão de todas as infraestruturas para estes dois eventos. O emprego no turismo será predominantemente de curto prazo e com recurso a pessoal pouco qualificado.

Em terceiro lugar, as insolvências cresceram mesmo com estes mega-eventos. As insolvências têm vindo a manter uma tendência de crescimento desde 2011, como consequência de um abrandamento muito forte da economia. As tendências preveem que continuará a haver um enfraquecimento da procura interna, da austeridade na política monetária do país e um aumento de juros bancários. A Euler Hermes e a COSEC esperam que as insolvências cresçam 9% em 2014 e mais 3% em 2015, mesmo com o reforço da atividade de criação de infraestruturas.

Mesmo com estas perspetivas menos positivas para a economia brasileira, não existem somente más notícias. Este relatório também prevê que não existirá uma “bolha imobiliária” no Brasil devido à organização destes mega-eventos. Também, o impacto destes eventos nas finanças públicas será limitado e não representa uma ameaça a nível fiscal, estima-se que só irão aumentar um ponto percentual ao déficit fiscal para o período de 2009-2016.

O desagrado social continua a aumentar devido ao aumento da inflação, não é surpresa nenhuma ver a agenda desportiva a moldar a agenda política durante as próximas eleições presidenciais em outubro,” reforça Ludovic Subran. “Em última instância, as reformas estruturais profundas podem vir mesmo a ser os mega-eventos no Brasil.